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Através de uma aprendizagem global, desde os fundamentos do funcionamento do corpo humano à importância dos relacionamentos na construção da personalidade, passando pelos bons hábitos, visa permitir-lhe assumir o controlo sobre a sua saúde e bem estar.

Lições

Seja bom para o seu coração

Introdução

A nossa saúde depende, acima de tudo, do bom funcionamento do coração e dos vasos sanguíneos. O sistema cardiovascular é de tal maneira importante para todo o organismo que se torna de primordial importância cuidar dele em qualquer idade.

Quando o seu carro atinge os cem mil quilómetros, não poderá exigir dele a mesma actuação que em novo. O coração é uma máquina muito mais complicada do que um carburador ou um alternador, e um vaso sanguíneo é mais frágil do que um tubo de radiador! Ora, todos sabemos que o rendimento de um motor com cem mil quilómetros depende, em grande parte, da assistência e dos cuidados dispensados ao veículo durante os primeiros trinta mil quilómetros.

O mesmo acontece com o ser humano. Quando os sinais de cansaço começam a manifestar-se, já aos quarenta anos, ficamos surpreendidos pois, nos nossos dias, um quarentão/quarentona é uma pessoa que atingiu o máximo do seu vigor físico e intelectual. Este estado pode prolongar-se até aos setenta anos ou mesmo mais. É precisamente para que este apogeu dure o máximo tempo possível, que é indispensável manter o coração em bom estado, evitando, desde a juventude, tudo o que o possa prejudicar.

Alguns especialistas, entre eles o Professor Jean Lenègre (ilustre Cardiologista francês), acusam o tabaco e o sal de serem os grandes responsáveis pelo desgaste do nosso sistema cardiovascular. Outros incriminam a vida trepidante das grandes cidades. Há também quem afirme, com razão, que não é apenas a febre dos negócios, o importunar do telefone ou os problemas financeiros que fazem as pessoas tornarem-se cardíacas: são também as contrariedades, as emoções, o excesso de trabalho, os inconvenientes da vida urbana. Outros declaram ainda que este desgaste de energia, mais nervoso do que físico, multiplica o aparecimento de afecções cardiovasculares. ?É entre os povos ricos e nervosos, declara um jornalista, que se encontra o maior número de cardíacos. É, por sua vez, devido às garfadas, ao prazer do volante, da poltrona ou ao ritmo de vida e das responsabilidades profissionais que os franceses, os escandinavos e os americanos devem pagar um pesado tributo às doenças cardiovasculares.? No princípio do século passado, na época do romantismo, era de bom-tom apresentar-se macilento, sofredor, peito cavado e aspecto desesperado. Nos nossos dias, a época do consumo e da velocidade, muitos homens de negócios ou directores de empresa com uma vida profissional agitada, quase se gabam de sofrer de angina de peito ou de terem sido atingidos por um enfarte do miocárdio!

A este respeito, o balanço apresentado pelos especialistas é alarmante. Quanto mais elevado for o nível de vida de um país, mais importante é a proporção de mortes provocadas por doenças cardiovasculares. Nos Estado Unidos, segundo o Prof. Claude Lenfant, director do ?National Heart, Lung, and Blood Institute?, morreram em 1989, 150 000 americanos por acidente vascular cerebral, aproximadamente 500 000 sofreram um A.V.C., não obstante ter sido levado a efeito um programa à escala nacional, iniciado em 1972 pelo ?Department of Health, Education, and Welfare? dos EUA, para detectar e controlar a hipertensão através da educação para a saúde.

Em Portugal, os A.V.C. atingem cerca de 40 000 pessoas por ano, ficando 5% destas pessoas incapacitadas e morrendo 50% delas. No entanto houve, desde 1980, uma redução de 25% da mortalidade por AVC, parte da qual se deve às campanhas de prevenção levadas a cabo pelo Instituto Nacional de Cardiologia Preventiva, nos meios de comunicação social, em particular na televisão. Mas, apesar da taxa de mortalidade por AVC ter diminuído, ela é ainda a primeira causa de morte no nosso país. Os mais reputados cardiologistas a nível mundial reconhecem, agora, que não são os transplantes de órgãos nem os medicamentos que permitirão uma regressão das doenças do coração e dos vasos sanguíneos. Apenas medidas de informação e prevenção poderão conduzir o homem civilizado a um muito melhor estilo de vida.

A crise cardíaca

O que é, pois, uma crise cardíaca? Quais são as suas causas? Como podemos preveni-la? Que riscos corremos de ser atingidos por ela a partir dos quarenta anos? O que é preciso mudar no nosso modo de vida para a evitarmos?

A maior parte das crises cardíacas são enfartes do miocárdio. Elas ocorrem quando um coágulo sanguíneo (trombo) ou uma placa de ateroma (pequenos depósitos de gordura na parede da artéria que se podem deslocar quando a superfície da artéria está lesada) obstruem completamente os pequenos vasos cardíacos que alimentam o coração (artérias coronárias). Deixando de ser suficientemente aprovisionado de oxigénio, o músculo cardíaco entra em sofrimento e necrosa (morre): é o enfarte do miocárdio. Quanto mais perto da aorta se der a oclusão e maior for o vaso, mais gravemente o músculo cardíaco será atingido e, daí, maior a probabilidade de morte.

Além disso, convém precisar que esta ameaça de crise cardíaca, devida ao mau estado das artérias coronárias, pode ainda afectar-nos ao nível do cérebro, dos pulmões ou das pernas, com afecções vasculares muito graves, causadas pela deterioração do sistema vascular. O nosso corpo é irrigado por 150 km de tubos sanguíneos de diferentes espessuras. A isto deverá juntar-se o número impressionante de 80 000 km de vasos microscópicos, chamados capilares, que desempenham um papel vital, visto que é graças a eles que se fazem as trocas metabólicas a nível dos tecidos. Assim, a célula recebe o oxigénio e os nutrientes necessários à sua sobrevivência. A circulação venosa transporta os resíduos e o dióxido de carbono do metabolismo celular. Temos, pois, toda a vantagem em conservar, nas melhores condições possíveis de funcionamento, esta gigantesca rede circulatória.

Os maus hábitos contribuem para aumentar o risco de crises cardíacas e de perturbações vasculares. Mas há, sem dúvida, outros elementos que a ciência médica ainda não descobriu. Todavia, para aqueles que desejam estar informados e dispostos a modificar determinados hábitos, existe actualmente um número suficiente de meios preventivos simples, para melhorar a saúde.

Tabagismo

Há uma estreita relação entre o tabagismo e as doenças cardiovasculares. Aqueles que fumam um maço de cigarros por dia, correm o risco duas ou três vezes maior de sofrer uma crise cardíaca do que os não fumadores. A partir de dois maços por dia, este risco multiplica-se por seis.

A falta de exercício

A vida sedentária contribui também grandemente para aumentar o risco de doenças cardiovasculares. No princípio do século XX, a maioria dos europeus andava a pé, várias horas no decorrer do seu dia de trabalho. As mulheres faziam frequentes trajectos entre a casa e o lavadouro, as fontes ou os poços e os mercados por exemplo. Não possuíam ainda os aparelhos modernos que evitam os esforços. Quase todos os trabalhos eram efectuados manualmente, favorecendo deste modo o exercício muscular. Hoje, transportar os sacos das compras do carro para a cozinha torna-se um verdadeiro enfado!

Está convencido de que faz exercício suficiente? Para saber, basta controlar o seu peso e palpar o seu pulso. Se ultrapassar em 20 % o seu peso ideal, o risco de doenças cardiovasculares pode duplicar. É preciso também contar as suas pulsações por minuto, quando se está em repouso e em posição de sentado. Se o coração bater a uma frequência cardíaca superior a 85 pulsações por minuto, em vez de 70 ou menos, o risco é triplo. Os médicos efectuam um terceiro teste que consiste em verificar a capacidade vital pulmonar. Quando ela não é provocada por uma doença das vias respiratórias, uma diminuição desta capacidade pode ser originada pela inactividade ou por um mau estilo de vida. Se duas destas condições se verificarem, o risco de doença cardiovascular ameaça-nos seriamente. Mas, um programa regular e adequado de exercícios, assim como o abandono de certos hábitos nocivos à saúde, podem remediar esta situação.

Hábitos alimentares

Durante milhares de anos, os nossos antepassados trabalharam a terra com dificuldade para se alimentarem, esforçando-se por atingir a abundância, o que raramente conseguiram. Hoje, os ocidentais vivem na superabundância e diz-se, por vezes, que por causa dela morrem! Nos Estados Unidos, a superalimentação faz uma vítima por minuto. Cada dia, nesse país, 1600 pessoas morrem de crises cardíacas provocadas, na maior parte dos casos, por doenças originadas por excessos alimentares.

A superalimentação provoca, com efeito, numerosas consequências nefastas no nosso sistema cardiovascular: peso em excesso, nível elevado de colesterol e de gordura no sangue, hipertensão arterial e diabetes. O simples excesso de peso pode aumentar o risco de morte por crise cardíaca. Quanto maior for esse excesso, mais elevado é o risco de hiperlipidémia (aumento de ácidos gordos livres no sangue). A taxa normal de colesterol ? que não é o único corpo gordo a circular no sangue ? deve situar-se entre 160 e 200, ou seja, 1,6 a 2 g/litro. Se ultrapassar 2,25 g, o risco é triplo, mas se atingir 2,50, esse risco sobe para o quádruplo.

O colesterol pertence a um grupo de gorduras conhecidas como esteróides e é um constituinte normal e necessário do sangue. O seu frequente excesso é devido a uma alimentação demasiado rica ligada a pouca actividade física. Entre os alimentos que aumentam a taxa do colesterol sanguíneo, podemos citar as carnes, os ovos, a manteiga e outras gorduras de origem animal. Interessante de referir é o facto de nos vegetarianos ? os vegetais não contêm colesterol ? o fígado ser capaz de sintetizar o colesterol necessário para suprir as necessidades do corpo. No corpo o colesterol circula ligado a 2 proteínas de transporte, chamadas LDL (lipoproteínas de baixa densidade ? que estão associadas à doença vascular) e HDL (lipoproteínas de alta densidade, que removem o colesterol das paredes dos vasos e o conduzem para o fígado, onde é transformado). Perceber os valores de uns e de outros permite aferir o grau de risco de cada indivíduo. Quanto mais alto for o Colesterol HDL, menor será o LDL, o que é sempre uma mais-valia.

Os triglicéridos são uma forma de gordura que circula na corrente sanguínea e que é armazenada no tecido adiposo do corpo. Quando eles são produzidos em grande quantidade, o risco de doenças cardíacas aumenta, principalmente se estiverem associados a outros factores, como o colesterol alto.

Diferentemente do que muitas pessoas pensam, não é só uma dieta com excesso de gordura que causa um aumento no nível de triglicéridos. O excesso de hidratos de carbono (especialmente açúcares) e calorias, em geral, fazem com que a concentração de triglicéridos no corpo aumente.

Um nível elevado de triglicéridos pode ser consequência de outras desordens, como diabetes não controlada, por exemplo, sendo, neste caso, os perigos de distúrbios vasculares graves consideravelmente piores.

Uma alimentação rica em proteínas e hidratos de carbono (açúcares) pode também contribuir para elevar o nível de lípidos no sangue. Os cientistas afirmam que a sacarose, ou açúcar branco de mesa, também contribui para isso, ao fornecer calorias desmineralizadas e vazias, isto é, desprovidas de enzimas de combustão. Se estas calorias não forem queimadas para produzir energia, o açúcar transforma-se em gorduras, com as quais sobrecarrega o sangue e os tecidos. Muitas sobremesas contêm uma elevada quantidade de açúcar. Uma sobremesa de gelado de baunilha e chocolate, com metade de uma banana coberta de chantili, ou de chocolate quente, conhecida com o nome de ?banana split? contém qualquer coisa como 35 colheres, das de café, de açúcar. Uma fatia de uma tarte de maçã pode conter 15 colheres de café de açúcar. Os alimentos que têm uma elevada proporção de ácidos gordos saturados (gorduras de origem animal) e de colesterol podem provocar doenças do sistema cardiovascular. Os queijos gordos, conhecidos entre nós como Flamengo (45 a 50%) e Serra (60 a 70%) são uma fonte de gordura elevada. A Fundação de Cardiologia dos Estados Unidos adverte que não deveríamos ingerir mais de 300 mg de colesterol por dia, ou seja, o que existe num ovo. Ora a média do consumo actual é superior a 600 mg.

Hereditariedade

A hereditariedade desempenha um papel muito importante nas afecções cardiovasculares. Não podemos com certeza conhecer todos os nossos antepassados, mas um conhecimento mesmo parcial da nossa hereditariedade pode ajudar-nos. Dado que estes factores hereditários nos fazem aumentar os riscos de doença, quanto mais depressa adoptarmos um modo de vida equilibrado, mais facilmente conseguiremos evitar estes problemas cardiovasculares que poderão tornar-se catastróficos. O sinal mais evidente da importância da hereditariedade é provavelmente a diabetes. Esta doença favorece a aterosclerose (endurecimento das artérias) e deveríamos suspeitar dela todas as vezes que o nível de triglicéridos do sangue é anormal, situação mais crítica ainda quando existir concomitantemente obesidade ou um antecedente familiar conhecido.

O teste de tolerância à glicose, efectuado pelos médicos, prova que alguns pacientes são diabéticos em potência, mesmo que nenhum sintoma desta doença se manifeste agora. Graças a uma terapêutica preventiva, eles poderão evitar a maior parte das doenças cardiovasculares.

Stresse e hipertensão arterial

As tensões quotidianas de ordem psicológica (stresse) desempenham um papel bem definido na doença cardíaca. Os cientistas propuseram um retrato ?robot? do hipertenso. Segundo se apurou, este tem um grande senso das responsabilidades; é ambicioso e submete-se a uma disciplina rigorosa. Na sua corrida para o êxito, a tensão criada provoca a aceleração do pulso e um aumento da pressão sanguínea. Sente-se, igualmente, angustiado e deixa-se abater pelas preocupações.

Na hipertensão arterial o coração envia mais sangue para as artérias e o excesso da pressão exercida nelas favorece o bloqueio das mais pequenas. Quanto mais elevado for o valor da pressão sanguínea, maior é o risco de doença cardíaca.

Hoje, dispomos de medicamentos e de técnicas de tratamento que se aplicam a todos os tipos de hipertensos e as recentes estatísticas têm mostrado a sua eficácia.

O stresse pode não só elevar a pressão arterial, mas também afectar o mecanismo de coagulação do sangue e aumentar o nível do colesterol. Pode ser, também, responsável pelo despertar de outras patologias, mas importa saber que um pouco de stresse mantém o corpo em boa saúde. Com efeito, o homem tem necessidade de um mínimo de stresse para que sinta prazer na vida. Só quando essa tensão é excessiva é que se torna prejudicial.

É preciso considerar, também, o estado de espírito com o qual estas tensões são assumidas. Os que sofrem de frustrações (decepções no trabalho, objectivos não alcançados, sentimentos de derrota ou de insuficiência, insatisfação ou mesmo revolta) suportam mal essas tensões. Em contrapartida, todos conhecemos alguém que trabalha durante longas horas e sofre tensões importantes, mas que, no entanto, escapa à doença cardíaca. Por que razão? Por um lado, porque gosta da sua actividade profissional, por outro, porque adopta um ritmo de vida que lhe permite ter momentos de relaxamento e descanso. Estas atitudes positivas põem-no ao abrigo de qualquer sentimento de angústia e de frustração. Cada um deve, pois, tomar consciência do grau de tensão que lhe é nefasto e ter actividades benéficas que lhe permitam apaziguar regularmente as suas agressões quotidianas.

Um coração saudável

A vida merecerá tanto mais ser vivida, se no seu peito bater um coração são. Isto não é impossível se, a partir de agora, corrigir todos os maus hábitos de que já falámos. Por isso, adopte imediatamente um estilo de vida positivo e, mesmo que sofra de perturbações cardíacas, pode esperar melhoras sensíveis. Quinze anos antes de se tornar presidente dos Estados Unidos, Lyndon Johnson foi vítima de uma grave crise cardíaca, que lhe pôs a vida em perigo. Mas, devido a uma estrita adesão aos princípios atrás enunciados, ele pôde continuar a ter uma vida muito activa durante numerosos anos. Hoje sabe-se, e há inúmeros documentos científicos a prová-lo, que um regime especial vegetariano pode reverter a doença aterosclerótica. Muitos doentes cardíacos, desenganados pelos seus médicos, conseguiram a reversão da doença e uma franca melhoria da sua qualidade de vida

Sem dúvida, nem sempre é fácil mudar o estilo de vida e a alimentação. Isso exige disciplina pessoal, mas vale a pena.

Para conservar o coração em bom estado

  1. Submeta-se todos os anos a um exame geral, incluindo um electrocardiograma e análises clínicas de rotina.
  2. Abstenha-se de ingerir matérias gordas saturadas e limite, ou evite mesmo, os alimentos ricos em colesterol. Coma com moderação, ou evite, iguarias açucaradas.
  3. Jante cedo e coma uma refeição o mais ligeira possível.
  4. Pratique exercício físico com regularidade. Evite esforços esporádicos e esgotantes, a não ser que esteja em boa forma física.
  5. Evite, na medida do possível, o stresse prolongado, as tensões emocionais e a ansiedade. Para conservar um bom equilíbrio procure alternativas físicas e culturais.
  6. Vigie a manutenção de um peso normal.