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Através de uma aprendizagem global, desde os fundamentos do funcionamento do corpo humano à importância dos relacionamentos na construção da personalidade, passando pelos bons hábitos, visa permitir-lhe assumir o controlo sobre a sua saúde e bem estar.

Lições

Prevenir o Cancro

Introdução

O que é o cancro? Os antigos já faziam esta pergunta! A forma do tumor canceroso parecia-lhes semelhante à de um caranguejo e, daí, o termo cancro (palavra latina que significa caranguejo). Cientistas de todo o mundo trabalham afanosamente para descobrir as suas causas e, sobretudo, os seus mecanismos.

O nosso organismo é constituído por unidades microscópicas designadas por células, só visíveis através do microscópio, que se dividem periodicamente e de forma regular, com a finalidade de substituir as já envelhecidas ou mortas e manter assim a integridade e o correcto funcionamento dos diversos órgãos.

O processo de divisão celular é regulado por uma série de mecanismos de controlo que ordenam à célula quando se deve dividir e quando deve permanecer estática. Por exemplo, como as células superficiais da pele se desgastam, as células que se encontram por baixo estão continuamente a dividir-se, a um ritmo predeterminado, para as substituírem no momento em que se destacam. Todo este processo é regulado por ?mensagens impressas? nos genes, que se situam nos cromossomas.

Quando estes mecanismos de controlo se alteram numa célula - levando à multiplicação incontrolada das mesmas em detrimento do órgão cujo tecido se deteriorou - esta e as suas descendentes (células filhas) iniciam uma divisão descontrolada que, com o tempo, darão lugar a um tumor ou nódulo. É como se as células perdessem a ?memória?. Os cientistas ainda não descobriram a causa desta proliferação celular anormal. Pensa-se, contudo, que ela seja devida a determinados vírus e a diversas substâncias químicas. No entanto, uma pergunta subsiste: como podem estas substâncias, ditas irritantes ou cancerígenas, desencadear este desenvolvimento anárquico das células? Alguns pensam que isso é impossível de compreender visto ser algo que implica os próprios segredos da vida. Outros são mais optimistas e afirmam que se pode diminuir o número de doenças cancerosas, graças aos conhecimentos adquiridos neste domínio. Estima-se que, nos países industrializados, um paciente com cancro, em três, consegue ser curado, mas se os nossos conhecimentos fossem mais bem aplicados, poderiam ser curados dois terços (um paciente é considerado curado se não tiver uma recaída no espaço de cinco anos, consecutivos ao tratamento).

O cancro causa cerca de 13% de todas as mortes no mundo, sendo os cancros do pulmão, estômago, fígado, cólon e da mama os que mais matam. Em países desenvolvidos, o cancro compete com as doenças cardiovasculares (principalmente enfartes coronários e AVC) enquanto causa de morte principal. Uma em cada quatro ou cinco pessoas morrerá de cancro nestes países. Em Portugal, os dados são semelhantes, à excepção do cancro do estômago que é muito mais comum devido à maior prevalência de Helicobacter pylori e do alcoolismo. No Brasil e em África, as incidências são bastante diferentes.

Os cancros do pulmão e da bexiga são na sua maioria causados pelo tabaco. Ter em atenção que o álcool e o tabaco são, só por si, responsáveis por 40% de todos os casos de cancro. Entretanto, uma em cada oito mulheres terá cancro da mama, embora a maior parte seja detectada numa fase curável que, se tratada, renova a sua esperança de vida.

Prevenção

Para a prevenção do cancro ser eficaz, ela deve orientar-se em duas direcções:

  1. Detectar o cancro antes que se formem metástases (células cancerosas que invadem órgãos ou tecidos vizinhos ou distantes) e que a doença se torne incurável;
  2. Esforçar-se por eliminar tudo o que é conhecido com probabilidade de provocar o cancro.

Relativamente aos sintomas não nos devemos alarmar inutilmente. É aconselhável consultar o seu médico periodicamente, a fim de fazer exames de rotina para que o mal possa ser detectado a tempo, porque 30% das mortes são devidas a diagnóstico tardio.

Principais sinais de alarme

Basicamente, os sinais e sintomas do cancro podem ser divididos em três grupos:

  • Locais: caroços ou inchaços não usuais (tumor), hemorragia (sangramento), dor e/ou ulceração;
  • Metástases: gânglios linfáticos aumentados, tosse e hemoptise (perdas de sangue pela boca), fígado aumentado, dor óssea, fractura de ossos afectados e sintomas neurológicos;
  • Sistémicos: perda de peso (perda da massa muscular), falta de apetite e cansaço inexplicável, transpiração excessiva (suores nocturnos), anemia.

Cada sintoma na lista acima pode ser causado por diversas condições, podendo o cancro ser tanto uma causa comum, como rara, para cada item.

De forma resumida, diríamos que os sintomas a que deve prestar mais atenção serão:

  • Nódulo ou dureza anormal no corpo. Cicatrização difícil de uma ferida;
  • Dor persistente no tempo;
  • Sinal ou verruga que se modifica;
  • Perda anormal de sangue ou outros líquidos;
  • Tosse ou rouquidão persistentes;
  • Alteração nos hábitos digestivos, urinários ou intestinais;
  • Perda de peso não justificada.

Eliminar os irritantes

Uma outra medida a adoptar na luta contra o cancro, consiste em afastar o mais possível do nosso contacto os agentes de acção cancerígena, tais como o alcatrão, o betume, o benzopireno, o arsénico, a acroleína, o benzol, o amianto e alguns corantes. A estas múltiplas causas terão de se juntar diversos tipos de radiações.

O efeito nocivo destas substâncias foi constatado pela primeira vez há 200 anos. Sir Perceval Potts, sábio Médico londrino, apercebeu-se de que os limpa-chaminés manifestavam mais cancro do escroto do que outras pessoas. Ele responsabilizou a fuligem por esse facto. Só muito mais tarde, em 1930, um cientista britânico descobriu na fuligem a presença de um irritante e cancerígeno, o benzopireno.

A poluição atmosférica, ajudada pelo nevoeiro que retém as partículas, é em grande parte responsável pelos elementos cancerígenos que actuam sobre o organismo. Numerosos especialistas estimam que a sua parte é mínima, comparada com outra poluição ? o fumo do tabaco. O fumo que se inspira, resultante da combustão do tabaco, contém dois a três milhões de partículas irritantes por mililitro. É por isso que os cientistas afirmam que a causa principal do cancro dos brônquios provocado pelo ambiente é o fumo do tabaco e não o nevoeiro.

O Prof. Reboul relata uma experiência feita em Nice, com elementos da secção de trânsito, em que examinou o índice de monóxido de carbono no sangue: nos agentes não fumadores o nível era de 2 a 4%, enquanto nos fumadores era de 10 a 13 %. Portanto, o efeito dos gases libertados pelos escapes dos veículos, comparativamente com o fumo do tabaco, era menor!

Os grandes fumadores (dois ou mais maços por dia) estão vinte vezes mais sujeitos ao cancro do pulmão do que os não fumadores. Os fumadores médios (um maço por dia) estão sujeitos a dez vezes mais. Somente se consegue salvar da morte, um em vinte cancerosos do pulmão. As estatísticas mostram que 90% das mortes por cancro do pulmão têm origem directa no hábito do tabaco. A eficácia da prevenção do cancro do pulmão está ao alcance de todos, pois conhecemos as suas causas: os alcatrões e outras substâncias irritantes, ou cancerígenas, como a acroleína e o benzopireno, que existem no tabaco de entre mais de 4500 substâncias já identificadas. Deixar de fumar (e evitar ambientes com fumo) é, pois, um remédio simples ao nosso dispor. Em Portugal, a campanha de informação e de prevenção levada a cabo pelo Ministério da Saúde vai certamente, como aconteceu noutros países, contribuir para a redução do consumo do tabaco e naturalmente da mortalidade por cancro entre os portugueses.

A Associação Internacional de Temperança, através da sua delegação em Portugal, tem vindo a realizar desde 1967, em várias localidades do nosso país, sessões de desintoxicação do tabaco. Este método, chamado ?Plano de 5 dias para Deixar de Fumar?, agora numa nova versão de mais dias, tem ajudado milhares de fumadores a libertarem-se deste terrível inimigo da saúde ? o tabaco. É um método de desintoxicação baseado na intervenção em grupo, utilizando somente meios naturais: hídricos, dietéticos, respiratórios e exercício físico.

Quando se considera a quantidade de fumo do tabaco e o número de anos a fumar necessários para se desenvolver um cancro dos brônquios, damo-nos conta de que, à poluição alimentar, através de corantes ou diversos aditivos, não cabe senão uma pequena parte de responsabilidade no desenvolvimento de outros cancros. Mas é um elemento importante que se junta a todo um estilo de vida, cada vez mais afastado das leis da Natureza.

Prevenir o cancro

Lutar contra o cancro, tratando-o, é evidentemente necessário. Mas esta é a pior das hipóteses. Aliás, os resultados terapêuticos são ainda mais relativos, apesar de se dispor de aperfeiçoados meios de tratamento, tais como a cirurgia, a radioterapia e a quimioterapia.

É preferível procurar prevenir o cancro, afastando o mais possível da nossa presença os produtos considerados cancerígenos. Mas isto não é tudo. Os produtos irritantes não são os únicos promotores de cancro, pois a hereditariedade, o estado psíquico e o modo de vida do indivíduo, contribuem também para isso. Ainda que não seja possível eliminar o ?passivo? hereditário, é fácil, pelo menos, não o agravar com hábitos nocivos. Podemos mesmo reduzir consideravelmente os seus efeitos, cuidando do corpo e do espírito para que se desenvolvam harmoniosamente. O genoma humano (o conjunto dos genes que nos diferenciam uns dos outros) tem uma capacidade adaptativa extraordinária. Contudo, a agressão constante e a sobrecarga dos mesmos nas suas actividades pode levar à sua desregulação.

Para compreendermos a influência da higiene de vida na prevenção do cancro, é necessário examinarmos um pouco o funcionamento das nossas células.

A vida celular

O corpo humano é formado por aproximadamente 100 triliões de células. Cada uma delas é composta por uma membrana protectora que, no entanto, permite as trocas de um protoplasma que possui ?centrais de energia? (as mitocôndrias) e de um núcleo (espécie de computador da célula), que comanda as fases do seu desenvolvimento e das suas actividades. Esta célula nutre-se graças a múltiplos fenómenos, em que a água e as cargas eléctricas, de um e do outro lado da membrana, permitem a penetração dos elementos nutritivos e a eliminação dos resíduos.

A maior parte das células possui a capacidade de se reproduzir rapidamente em casos particulares, como no crescimento dos tecidos da criança, na cicatrização de feridas ou simplesmente na substituição de células mortas. Esta multiplicação efectua-se, pois, segundo um programa estabelecido no núcleo. Devido a este mecanismo, pouco conhecido apesar dos avanços já acontecidos e extremamente importantes, não se formam mais células do que aquelas que são necessárias. Mas acontece, por vezes, que algumas delas escapam a este controlo e começam a proliferar anarquicamente, dando assim lugar à formação de um tumor.

Actualmente, a maioria dos oncologistas de renome mundial é de opinião que o aparecimento do cancro não é senão o último acto de um longo processo de alterações neurovegetativas, imunitárias e glandulares, de distúrbios nutritivos e de perturbações biológicas celulares. O cancro forma-se, sobretudo, nas células já alteradas, forçadas, irritadas, desorganizadas há muito tempo, isto é, enfraquecidas e doentes.

Compreende-se perfeitamente que, em tal terreno orgânico, os agentes irritantes atrás mencionados entram facilmente em acção. Os tecidos enfraquecidos não têm força para lutar. A imunidade contra o cancro, nestas condições, já não pode ser assegurada pelas forças vitais naturais.

O modo de vida

Tem-se afirmado muitas vezes que o estilo de vida que se afasta da natureza ou que denota um desequilíbrio em relação às leis da fisiologia favorece uma taxa elevada de cancros.

Em princípio, os irritantes externos, quer sejam mecânicos (fricção), indutivos (choques, queimaduras, cicatrizes), radioactivos (raios X), ionizantes (raios ultravioletas) ou químicos (alcatrões, corantes), devem ser evitados.

Os agentes internos agravam o efeito desastroso dos precedentes. É necessário, por isso, afastá-los também. Estamos a referir-nos ao nosso estilo de vida. É, em primeiro lugar, a superalimentação e o consumo habitual de alimentos artificiais, refinados e com corantes. É o excesso de gorduras, de açúcar, de carne, de alimentos demasiado energéticos e o consumo reduzido de fibras (celulose) que se encontram nos legumes, frutas e cereais integrais (o pão e os cereais integrais contribuem amplamente para reforçar as defesas naturais do organismo). É o consumo de álcool, o tabagismo e o consumo frequente de excitantes (café, chá, cacau, coca-cola) ou medicamentos tóxicos. São o sedentarismo, a insuficiência respiratória e muscular, o excesso de trabalho, a falta de sono, o barulho, as preocupações e os infortúnios, entre outros. Enfim, é também a vida citadina moderna. Esta tende a aumentar a incidência de cancro, fazendo cerca de dez milhões de mortes por ano, no mundo. O professor Tubian, oncologista em Vilejuif (França), revelou que os estudos realizados com a cafeína mostraram ser, esta, um agente farmacológico terrível para o sistema nervoso e que parece estar na origem de uma proporção elevada de cancros da bexiga.

?O cancro aumenta paralelamente com o progresso da civilização e, se a humanidade quiser travar o crescimento deste flagelo, deve voltar à vida simples e primitiva.? (Prof Angel Roffo, Buenos Aires)

Uma tal higiene de vida suprimiria mais de metade de todos os cancros, os quais, depois de algumas gerações, poderiam limitar-se a casos isolados.

A verdadeira e mais indicada prevenção para conservar a saúde e na qual se deverá investir o essencial dos nossos recursos consiste, pois, em escolher viver de acordo com uma certa sabedoria: fugir dos excessos, evitar os erros alimentares, abandonar o álcool, o tabaco e o abuso de medicamentos, manter o equilíbrio entre o repouso, as actividades físicas e as tensões nervosas, utilizar abundantemente a água, o ar e o sol e cultivar, por fim, sentimentos positivos: alegria, confiança e altruísmo.

O cancro ainda não revelou o seu segredo e não sabemos, como aconteceu com a tuberculose, se um dia o revelará. Mas, conhecemos alguns meios de o evitar, o que é importante. Por isso, temos um importante papel a desempenhar na prevenção desta doença.