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Através de uma aprendizagem global, desde os fundamentos do funcionamento do corpo humano à importância dos relacionamentos na construção da personalidade, passando pelos bons hábitos, visa permitir-lhe assumir o controlo sobre a sua saúde e bem estar.

Lições

O problema das drogas

Introdução

Segundo a definição da Organização Mundial de Saúde, uma droga é uma substância que modifica o funcionamento do organismo no qual é introduzida. Quando se fala em drogas, pensamos imediatamente na marijuana, no haxixe, no LSD, na heroína ou na cocaína. Mas não podemos esquecer que existem outras, igualmente perigosas quando utilizadas sem controlo médico, como as anfetaminas e os barbitúricos. Mesmo o tabaco e o álcool, de uso corrente, são igualmente considerados drogas, embora legais. No entanto, a palavra droga lembra, sobretudo, o tráfico de estupefacientes e toda uma tenebrosa rede de intermediários, adolescentes manipulados, experiências lamentáveis, degradação e desespero.

A preocupação no que diz respeito a esta primeira categoria de drogas é perfeitamente compreensível. A utilização destas «ervas» está muito espalhada, vulgarizada e a aumentar todos os anos. Segundo o Dr. Olievenstein, especialista em desintoxicação de toxicodependências e director do Hospital de Marmotten, em Paris, o problema da droga tende a modificar-se actualmente nos países ocidentais. Limitado no princípio a um meio muito restrito, actualmente o consumo da droga espalha-se cada vez mais. Na década de 70, o número de toxicodependentes era insignificante em alguns países, como por exemplo Portugal. Segundo dados fornecidos pelo Serviço de Prevenção e Tratamento de Toxicodependentes, recorreram, apenas num semestre, às unidades terapêuticas para toxicodependentes existentes em algumas zonas do nosso país, mais de 16 000 toxicodependentes. A característica principal desta evolução é a de registar cada vez mais jovens. Receando-a outrora, agora, tanto rapazes como raparigas, procuram-na, e em idades cada vez mais baixas. Pensa-se que 90% destes jovens têm menos de 25 anos. A maioria pertence a famílias abastadas, ou então a franjas da sociedade em que a inactividade, o divórcio e a marginalidade predominam.

No início, os jovens são atraídos pela curiosidade, pela influência dos colegas, por um pretenso prestígio, pela pressão do grupo e pelas solicitações dos revendedores. A maior parte das vezes, isso depressa se transforma num desejo de evasão e finalmente em necessidade. O tabaco e o álcool encontram-se, claramente, à frente do pelotão das drogas consumidas. A permissividade, por serem drogas legais, facilita a entrada no consumo das restantes, se a oportunidade surgir. O haxixe e o ecstasy vêm logo a seguir, consequência da necessidade de maior satisfação e de desafio. A heroína, com enorme facilidade de provocar adição, é o passo seguinte, muitas vezes irreversível.

O Dr. Olivenstein vê, em muitos destes jovens com comportamentos psicóticos, desequilibrados e perturbados, pessoas doentes, imaturas e influenciáveis, para as quais aconselha medidas preventivas adequadas à supressão da causa.

A evolução a que estamos a assistir na Europa aconteceu nos Estados Unidos, há alguns anos. Nessa altura, a Comissão Nacional Americana Sobre o Uso de Droga estimava que vinte e quatro milhões de pessoas já teriam fumado erva, pelo menos uma vez na vida, depois da moda do seu consumo se espalhar. A Academia das Ciências dos Estados Unidos revelou recentemente que mais de cinco milhões de norte-americanos são toxicodependentes e precisam de tratamento médico. Os toxicodependentes graves representam mais de 2 % da população com mais de 12 anos e as mortes causadas por overdose de heroína triplicaram em dez anos, na região de Nova Iorque.

Os especialistas em droga estão agora, mais do que nunca, convencidos de que não há para ela uma solução única. Aparentemente, existem tantas causas, atribuídas ao seu consumo, quanto o número de drogas. Contudo, uma opinião comum parece prevalecer entre os peritos: o melhor lugar para prevenir o uso da droga situa-se no lar. Antes que os adolescentes tomem conhecimento da sua existência, os pais devem ajudá-los abordando com eles o assunto de maneira franca e inteligente. Por um lado é necessário consolidar o seu carácter, por outro é necessário ensiná-los a discernir as diferentes drogas e a informá-los dos perigos a que se expõe um drogado.

Esta preparação deve começar bem cedo. Quando o adolescente é solicitado para uma primeira experiência, a prevenção é inútil. Esta responsabilidade pertence em primeiro lugar aos pais. A escola deveria continuar este trabalho através de cursos e discussões. Paralelamente, os meios de comunicação deveriam introduzir, nos seus programas, advertências destinadas à juventude. No entanto, os argumentos mais poderosos (exemplos, conceitos, escolha de valores) que ajudarão os jovens no momento crucial serão transmitidos no lar pelos pais. Muitos educadores reconhecem, agora, que não há nada que substitua um ambiente familiar sólido e afectuoso para compensar a influência nefasta de alguns colegas.

O meio familiar pode igualmente desempenhar um papel terapêutico. É por essa razão que, em vários lugares, se têm desenvolvido iniciativas privadas para salvar os jovens drogados. Algumas famílias e associações acolhem estes jovens desorientados. Deste modo, no âmbito de uma educação familiar ou comunitária bem compreendida e no seio da Natureza, eles readquirem o gosto pelo esforço, familiarizam-se com as leis da vida e descobrem nelas alegrias simples, profundas e duradouras. Isto permite-lhes retomar a confiança em si próprios e ajuda-os a não cair novamente na armadilha da droga.

Uma nova concepção

Alguns pais não compreendem por que é que os seus filhos se tornaram drogados, convencendo-se de que tudo fizeram para evitar este drama. É sem dúvida importante considerar o que se passa nos Estados Unidos, onde este problema se apresentou mais cedo do que na Europa.

O perfil sociológico das famílias americanas de jovens drogados, pondo de parte a etnia e nível social, mostra que a maior parte delas corresponde a um esquema educativo considerado de boa qualidade. Por outras palavras, estes jovens são oriundos geralmente de um meio social abastado. O pai e a mãe são pessoas importantes, tendo numerosas actividades socioprofissionais e dando aos seus filhos tudo o que o dinheiro pode oferecer de melhor. Estes beneficiam da melhor tradição democrática: foi-lhes dada a liberdade de se exprimirem e de tomarem decisões chave. Foram assim encorajados a desenvolverem a sua individualidade.

Um inquérito realizado em famílias de cem estudantes permitiu concluir que todos, excepto quatro, tinham experimentado a droga. Os membros de cada família foram todos interrogados. Os pais tiveram de responder a um questionário destinado a avaliar o seu valor pedagógico, permitindo determinar dois grupos importantes, um de «riscos menores» e outro de «riscos maiores».

Salvo raras excepções, os pais do grupo de «riscos menores» respeitavam os valores tradicionais: fé, família, pátria. Eles mantinham com firmeza a sua autoridade, decidindo acerca do programa, dos tempos livres e dos estudos dos seus filhos. Estes pais consideravam a família como a sua maior fonte de interesse e de satisfação.

Os pais do grupo chamado de «riscos maiores» tinham, pelo contrário, o sentimento de que os seus filhos deviam tomar as suas próprias decisões, o mais cedo possível. O importante, para eles, era que se permitisse a cada um o seu desenvolvimento sem constrangimentos. Embora idealistas, estes pais não tinham nenhum código formal de crenças e sentiam dificuldade em dar um sentido real à sua vida.

Estas duas formas de educação, diametralmente opostas, conduzem normalmente aos seguintes resultados: os pais de «riscos menores», que fixaram limites precisos a não ultrapassar, vêem geralmente os seus filhos manterem-se neles sem dificuldade. Os outros, de «riscos maiores», permitem tudo e os seus filhos aproveitam-se plenamente disso, indo geralmente muito mais longe do que os pais desejariam.

Retrato de família

Quando os jovens de «riscos maiores» utilizam drogas, frequentemente, não fazem mais do que seguir o exemplo dos pais. Geralmente, os próprios pais são grandes consumidores de drogas, como o tabaco, o álcool e, eventualmente, sedativos, mas recusam-se a reconhecê-lo, projectando os seus próprios problemas e o seu modo de vida nos seus filhos.

Um estudo levado a efeito pelo Dr. William Mc Glothin, psicólogo especializado nos problemas de que estamos aqui a tratar, confirma o ditado «tal pai, tal filho». Este estudo, realizado a pedido da Comissão Nacional dos Estados Unidos para o Uso de Drogas, foi efectuado na Universidade de Los Angeles, na Califórnia, e incidiu sobre alunos com tendência para utilizar drogas. Dele parece concluir-se que os adolescentes cujas mães usam regularmente tranquilizantes, são três vezes mais susceptíveis a drogar-se do que os outros. Aqueles de quem o pai e a mãe fumam, têm quatro vezes mais tendência para experimentar a heroína do que os outros cujos pais não são fumadores. Também 44% dos utilizadores de LSD e de outras ervas viram, pelo menos uma vez, a mãe embriagada.

Este estudo traça o perfil psicológico dos não consumidores de drogas. São jovens cooperadores, espontâneos, muito apegados à família e que aceitam de boa vontade os conselhos dos seus pais.

Os inquiridores passaram um serão em cada uma destas famílias e ficaram impressionados com o bom entendimento que reinava em volta da mesa familiar. Pais e filhos sentiam-se realmente felizes na presença uns dos outros.

Questionados sobre a razão pela qual nunca tinham tomado droga, alguns estudantes responderam que «tinham coisas mais importantes para fazer». Mas ao serem pressionados a dar uma explicação mais completa, a maioria destes jovens declarou que as calorosas relações familiares e um agradável ambiente no lar tinham desempenhado um importante papel na sua abstinência.

As chaves da solução

A informação

O primeiro passo na prevenção contra o uso de droga consiste em fazer compreender, tanto aos pais como aos jovens, os dados reais do problema. É preciso dizer que cada droga, mesmo leve, é nociva e que a habituação à heroína é o resultado de uma escalada iniciada por uma simples tentativa, aparentemente inofensiva. Temos de reconhecer que as drogas mais perigosas podem ser as que entram na composição de certos medicamentos (anfetaminas e barbitúricos). É essencial fazer compreender a todos que o tabaco e o álcool são as drogas mais perniciosas, pois beneficiam de um consenso geral. Portanto, elas não só constituem uma pesada ameaça para a saúde do homem, mas também estimulam o organismo para o uso de outras drogas.

O exemplo

O segundo passo é o exemplo dos pais e dos educadores, abstendo-se do uso de qualquer outra droga.

O fácil acesso a determinadas drogas, como bebidas alcoólicas, cigarros e medicamentos devia ser evitado, já que, mesmo inconscientemente, induzem a ideia de que esses produtos não são tão maus como se diz.

A publicidade

O terceiro passo deveria ser a publicidade contra a utilização de certas drogas. Em comparação com as avultadas somas gastas com a publicidade ao álcool e ao tabaco, os orçamentos destinados à prevenção são claramente insuficientes. As campanhas feitas a nível nacional não têm conseguido travar a subida de vendas destes produtos, revelando-se incapazes de revelar o perigo real que representam.

A influência familiar

A acção mais eficaz para prevenir o uso de drogas consiste em criar, no seio familiar, um conjunto de hábitos e princípios, aos quais a criança se ligará instintivamente. Isto quer dizer que é necessário ajudá-la a discernir, desde a mais tenra idade, os verdadeiros valores da vida.

Uma forma simples e eficaz de prevenção do uso de drogas, que poderá ser seguido por pais e futuros pais, é o cumprimento de 10 regras básicas:

  1. Explicar à criança, de forma clara e sucinta, qual deve ser a sua conduta, assegurando-se de que ela compreende os motivos para o seu seguimento.
  2. Assumir a responsabilidade de tomar decisões quando a criança não está em condições para o fazer, justificando os motivos da decisão tomada.
  3. Dar independência aos jovens sem deixar de exercer o controlo necessário para que se mantenham no caminho certo.
  4. Evitar tomar todas as decisões importantes da vida dos jovens, permitindo-lhes crescer de forma responsável. A maioria dos especialistas concorda no facto de que só a disciplina, tendo por base a compreensão e a simpatia, pode permitir aos próprios jovens tomarem sábias decisões e dirigirem bem a sua vida.
  5. Atribuir responsabilidades domésticas aos jovens, demonstrando que cada membro da família deve ser solidário com os restantes.
  6. Pedir e aceitar a opinião dos jovens, sempre que possível. Ouvir, dialogar e demonstrar confiança no bom senso dos jovens, aceitando ou discutindo sabiamente os seus argumentos, facilitará a identificação e resolução de deslizes.
  7. Evitar o fingimento, a mentira, o engano, ou a falta de franqueza. Os jovens são muito sensíveis à hipocrisia da sociedade, revoltando-se facilmente quando se sentem afectados por ela.
  8. Confiar responsabilidades que requeiram honestidade e bom senso, dando o exemplo como pais responsáveis e honestos.
  9. Ouvir os jovens mesmo quando as suas opiniões são contrárias às dos adultos, explicando as implicações das suas opiniões.
  10. Mostrar, através do exemplo, que se pode desfrutar de bons momentos sem, no entanto, recorrer ao álcool ou aos alucinogéneos. Tocar ou ouvir música, pintar, praticar um desporto, dar um passeio a pé, estudar assuntos sugestivos, permitindo encontros amigáveis e familiares que proporcionem alegria e bem-estar.

Conclusão

Os maiores prazeres são aqueles que dignificam. Os outros, por vezes mais excitantes, não fazem mais do que «matar tempo», revelando-se prazeres egoístas com finais amargos.

A partir do momento em que qualquer jovem corre o risco de entrar em contacto com o mundo da droga, é necessário adverti-lo abertamente através do diálogo. O adolescente deve saber qual é a opinião dos seus pais a este respeito, prioritariamente à dos seus amigos. No entanto, os pais não devem pretender saber tudo acerca deste assunto.

É importante não revelar ao adolescente as suspeitas que sobre ele recaem, e se porventura se provar que as suspeitas são verdadeiras, não se deve passar a mensagem de que acaba pisar o primeiro degrau da escada para o inferno.

A melhor resposta para o problema da droga é, sem dúvida, proporcionar aos jovens um ambiente caloroso e uma perspectiva de vida agradável, dando-lhes a possibilidade de encontrarem um ideal elevado.

O diálogo seguinte ocorreu entre um médico e um jovem drogado:

"- Porque toma drogas?
- Por que razão não as devo tomar?
- O que posso fazer para convencê-lo a deixar de consumi-las?
- Mostre-me qualquer coisa melhor!"

Por vezes, «qualquer coisa melhor» é simplesmente um conselho amigo, capaz de advertir para os perigos, sem dramatizar. A maior parte das vezes, o jovem drogado tem falta de carinho e os seus desejos profundos não podem exteriorizar-se porque ninguém se interessa por ele nem o respeita. Mostrar simpatia, depositar confiança nele e envolvê-lo com amor são formas de lhe criar novos pontos de interesse que o afastem dos seus interesses nocivos.

Ética, disciplina de vida e fé religiosa, são noções que muitos crêem estar ultrapassadas, mas que, na verdade, podem causar grandes prejuízos à juventude se rejeitadas. Estes são conceitos que cada pai, cada educador, deve respeitar, não devendo esperar que o Estado, a Escola ou a Igreja, sejam os únicos transmissores dos mesmos. A influência familiar pode ser complementada por agentes exteriores, mas não pode ser substituída.

Uma família unida, no seio da qual existe um bom viver, é a verdadeira solução para a droga!