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Através de uma aprendizagem global, desde os fundamentos do funcionamento do corpo humano à importância dos relacionamentos na construção da personalidade, passando pelos bons hábitos, visa permitir-lhe assumir o controlo sobre a sua saúde e bem estar.

Lições

Como viver com o stresse

Estava um lindo dia de Primavera! O Pedro sentia-se feliz de viver, porque tinha um grande projecto. Iria tentar descer as gargantas do rio Verdon em kayak. O degelo tinha feito derreter uma parte da neve dos cumes da Haute Province e a água precipitava-se pelas ribanceiras abruptas. A paisagem, cheia de flores primaveris e contrastes de cores, era encantadora. Mas o Pedro mal reparou nela. O seu barco deslizava já sobre a água tumultuosa. Os rápidos aproximavam-se; a sua força muscular e habilidade iam ser postas à prova, porque a corrente tornava-se cada vez mais forte. A velocidade aumentou e ele concentrou-se em dirigir o seu barquinho pela água impetuosa. O momento de perigo esperado tinha chegado.

De repente, o kayak deu uma guinada e o Pedro foi apanhado pela contracorrente espumosa. Forças invisíveis sacudiram a frágil embarcação e fizeram-na dançar como uma bóia. Todo molhado, o Pedro pôs-se a remar vigorosamente para não soçobrar. Mas aconteceu o inevitável. O remo do Pedro partiu-se no momento em que lutava com todas as forças para manter o barco equilibrado. Sem essa ajuda, o kayak virou-se violentamente e foi atirado em direcção à margem. O Pedro, que fora cuspido, desapareceu por uns instantes. Mas, porque era um bom nadador, conseguiu alcançar águas mais tranquilas e nadar até à margem. Tendo conseguido recuperar o kayak, amarrou-o a umas árvores e comentou para si próprio: ?Ena! Por hoje basta de aventura?

Na nossa vida muitas coisas passam-se assim também. Tentamos ultrapassar complicados problemas em que nos metemos, voluntariamente muitas vezes, lutando para escapar aos perigos surgidos. Ficamos, assim, metidos num círculo infernal de tensões e agressões contínuas, nos ?rápidos? do stresse.

STRESSE ? é o conjunto de perturbações orgânicas e psíquicas provocadas por vários agressores como o frio, uma doença infecciosa, uma emoção, um choque cirúrgico, etc..

Vida quotidiana

No nosso trabalho profissional, defrontamo-nos com rivalidades e sofremos derrotas. No plano económico e social, criamos necessidades cada vez maiores. À noite, encontramos em casa o cônjuge que passou, ele também, por frustrações. Estamos num estado de tensão tal, que nem um nem outro podem suportar um momento de intimidade. Alguns vão então ao café, onde encontram de novo muitas pessoas e barulho!

Uma noite, a equipa de futebol de que sou um fiel apoiante, participava num sensacional jogo para a taça dos Campeões Europeus. Aí, como habitualmente, fomos empurrados, puxados, ?agredidos? com gritos, impropérios e sujeitos ao nervosismo pela incerteza do resultado. Quando entrámos em casa, a euforia do jogo ainda nos dominava. Quando nos deitámos, o sono tardou em chegar. E por que motivo? Tínhamo-nos esquecido de distender, de relaxar, de oxigenar, de comunicar. Mas se tivéssemos ficado em casa, teríamos, se calhar, passado o tempo diante da televisão a ver o mesmo jogo ou a ver um filme qualquer. Ora, um filme dramático provoca, no sistema nervoso de alguns, uma tensão de tal modo forte que pode originar crises cardíacas mortais em frente ao pequeno ecrã, segundo o professor Jouve, Coeur et Santé, nº 8, pág, 7.

As próprias crianças sofrem a tensão da vida moderna. Na escola sentem-se enredadas numa contínua competição, tanto nas aulas como no recreio. De regresso a casa, ligam a televisão onde vêem sobretudo filmes com cenas de ?suspense? e de uma violência que agravam o stresse acumulado do dia. As crianças são particularmente sensíveis ao efeito da televisão. É nefasto, para elas, passarem uma tarde inteira a ver sucessivos programas. A atenção, sendo ininterruptamente solicitada, provoca grande fadiga nervosa. Deste modo, procuremos programar o tempo dos nossos filhos de maneira a que não fiquem horas esquecidas diante do aparelho de televisão ou do computador.

Quando a família se senta à mesa para o jantar, ninguém está disponível para a conversação, pois cada um se sente ainda preocupado com o que viu no pequeno ecrã, ou expectante sobre o que irá ainda acontecer e isto quando a televisão não faz parte da refeição. A refeição, que deveria contribuir para a saúde da família, já não permite a troca de impressões, que é fonte de calma e de harmonia.

A vida nas grandes cidades submete-nos a outras agressões tais como barulhos excessivos, circulação incessante, concentração humana e desumanização dos grandes blocos habitacionais, agressividade da publicidade e da informação, excesso de impressões visuais, ostentação da sexualidade, etc.. Será que, para escapar a esta agressão urbana, é suficiente um fim-de-semana? Mesmo que passado fora do bulício?

Mudança de trabalho e de habitação

Hoje, muitas famílias são obrigadas a mudar de casa por o pai ou a mãe serem transferidos para outra secção da empresa onde trabalham. Talvez se trate de uma promoção. Mas este desenraizamento pode provocar situações de stresse. Os pais serão obrigados a desenvolver novas relações, adaptar-se às novas condições de trabalho, de aprovisionamento, etc.. As crianças terão de mudar de escola e de fazer novas amizades.

Uma experiência ainda mais penosa é a do desemprego, que se torna cada vez mais frequente. Antes que a sociedade actual resolva este problema, o homem pode ser chamado muitas vezes a enfrentar este drama.

Stress em excesso

a) A lição do pelicano

Verificou-se nestes últimos anos que os pelicanos castanhos do golfo do México morriam às dezenas. Vários cientistas procuraram conhecer a causa, porque o pelicano castanho é, na Louisiana, o que a cegonha é na Alsácia ou em Portugal. Após investigações aprofundadas, descobriram que os pelicanos tinham absorvido pesticidas. Estes, no entanto, vinham desde há muito tempo a ser aplicados naquela região. Deste modo, por que razão só agora morriam estas aves e não todas ao mesmo tempo? Ted Joanen, zoologista da reserva Rockfeller para a vida selvagem e a caça de Louisiana, reconheceu que era o stresse que matava os pelicanos. Quando estes comiam os peixes contaminados, os pesticidas acumulavam-se nos tecidos adiposos e não lhes faziam mal. Aconteceu assim até ao dia em que estas aves, tendo-se tornado muito numerosas, já não encontravam alimento para os filhos. Esta situação provocou neles um excesso de stresse. Demoravam então a consumir uma energia suplementar, que queimava os tecidos adiposos em reserva. Os venenos contidos nas gorduras e que não faziam nenhum mal aos pelicanos enquanto eles tinham uma vida normal, chegavam agora em doses maciças ao fígado e depois ao cérebro, causando-lhes a morte.

O mesmo se pode passar com o homem. Cada vez que adoecemos, o stresse desempenha um papel importante. Ele pode ser, por sua vez, causa ou resultado da doença.

b) O seu próprio ritmo

Certamente que é possível organizar a nossa vida de tal maneira que o stresse não nos perturbe psicológica ou fisicamente. Devemos velar por isso. Todavia, para nos mantermos em boa saúde, é, apesar de tudo, necessário um mínimo de stresse. Cada um deve descobrir a que ritmo pode trabalhar normalmente sem pôr em risco a sua saúde. Todos temos uma capacidade de trabalho diferente. Um ritmo de vida que parece demasiado frenético para um, é absolutamente normal para outro. Quando planificamos as nossas tarefas e o nosso tempo, aumentamos as nossas possibilidades naturais. O director de uma certa empresa com oitenta empregados, afirma que pode desempenhar facilmente três outras funções comunitárias e sociais na sua cidade. Estabeleceu um programa que lhe permite realizar muito trabalho sem prejudicar a sua saúde.

Porém, o homem que trabalha demasiado nem sempre se dá conta dos danos que podem provocar os ?stresses? acumulados durante anos. Alguns médicos pensam que uma pessoa pode manter-se com saúde, desde que os seus períodos de stresse não ultrapassem doze horas e não sejam muito frequentes. Embora a acumulação excessiva de stresse seja difícil de avaliar, algumas atitudes poderão ajudar-nos a discerni-las.

Há profissões mais exigentes do que outras: é o caso dos responsáveis pelo tráfego aéreo, corretores da bolsa, médicos, cirurgiões, professores, telefonistas, etc.. Para que se possa evitar o excesso de stresse, deve-se praticar um desporto, passar algum tempo com os filhos a fazer exercício físico, a falar com eles e a escutá-los. Muitas pessoas, que triunfam na vida, dizem que se relaxam brincando com os seus filhos. Na verdade, esta atitude é benéfica sob os dois aspectos: a nível individual, este simples exercício evita ? stresses? suplementares; a nível familiar, diminui as tensões entre pais e filhos.

A utilidade do stresse

a) A vida profissional

A partir do momento em que o automatismo se substitui ao esforço do homem, este sente-se com predisposição para o enfado e a perda de interesse pelo seu trabalho. As suas energias e talentos são pouco, ou nada, solicitados. Vive insatisfeito e intensifica o seu stresse emocional. Com a continuação, esta angústia pode provocar a depressão. Vejamos, um exemplo.

O João Pedro é responsável de secção de um grande armazém de pronto-a-vestir. Tem de controlar as entradas e saídas das mercadorias. Ao longo dos anos, a frustração invadiu-o e tornou-se uma pessoa impertinente. Chegou mesmo a perder o gosto de viver e o seu médico aconselhou-o a consultar um psicólogo. Depois de várias entrevistas, este descobre que o João Pedro sofre o trauma de um caso passado consigo há alguns anos. Aquando da 2ª Grande Guerra Mundial, na África do Norte, o seu camião foi atingido por uma mina e incendiou-se. Tendo escapado por um triz juntamente com um amigo, descobriu um veículo do inimigo abandonado. Como era um hábil mecânico, o João Pedro conseguiu repará-lo e voltar de novo para a sua unidade.

O psicólogo descobriu então que o estado moral do João Pedro provinha do facto dele se sentir inútil neste armazém de pronto-a-vestir. Por isso aconselhou-o a mudar de trabalho. O João Pedro encontrou um outro emprego, desta vez na secção de peças duma importante oficina de reparações mecânicas. Aqui, o seu talento de mecânico permitia-lhe ser o conselheiro de muitos dos seus colegas e dos clientes que vinham procurar peças. ? Nunca o nosso negócio correu tão bem. As nossas vendas aumentaram desde que temos a trabalhar connosco este empregado?, afirmou um dia o gerente. E, por seu lado, o João Pedro nunca se sentiu tão satisfeito com o seu trabalho como agora. Era um homem feliz, porque se sentia útil e apreciado. Na sua vida, no seu lar, tudo se transformou. Voltou a sentir de novo a alegria de viver, porque este novo trabalho correspondia verdadeiramente às suas necessidades.

Um final menos feliz pode esperar aquele que não fez planos para os anos de reforma. Há casos de pessoas muito activas, que morrem alguns meses depois de terem cessado as suas actividades profissionais. Para estes, a vida perdeu subitamente o seu interesse e deixaram-se morrer.

As mudanças bruscas e traumatizantes, tais como a partida dos filhos, a perda de um cônjuge, o desemprego, o divórcio, podem acumular-se na existência de um indivíduo e pôr também a sua saúde, ou mesmo a sua vida, em perigo.

b) A mulher no lar

Quando uma jovem se casa, tudo é maravilhoso. Mas ela pode ser levada, em pouco tempo, a defrontar-se com problemas difíceis. E isto devido ao facto do seu universo ter mudado de repente. Agora passa a ter menos contactos com as suas amigas de infância e adolescência. O marido trabalha muitas horas para concluir a sua especialidade. Ela passa o tempo em casa sozinha, sem ter ninguém com quem possa falar. Se o marido não compreende a situação e não arranja um pouco de tempo para sair com ela, podem sobrevir sérios problemas.

A Sofia sentia-se muito feliz por ser mãe e esposa, funções essas que desempenhava com muita dedicação. Era a rainha da casa e sabia não só cativar os membros da família, mas também os convidados. Um dia, porém, verificou com espanto que já não conseguia realizar o seu trabalho quotidiano com a mesma energia e dedicação. Sentia-se indolente, sem apego ao trabalho. Como e quando tinha isto começado? Ela não sabia, mas uma noite disse ao marido:

?Não compreendo verdadeiramente o que se passa comigo. Já não sinto forças nem interesse por aquilo que faço. Esta noite, por exemplo, tive de fazer um grande esforço para conseguir preparar o jantar. Estou preocupada.

?O que se passa?? perguntou o marido. Na verdade, não pareces a mesma pessoa. Tenho uma proposta a fazer-te. Amanhã à noite vamos jantar a um pequeno restaurante que acabo de descobrir. E, se quiseres, podemos convidar o Daniel e a Manuela.?

A Sofia gostou imenso daquele convite e sentiu-se voltar a ser ela mesma. Entretanto, aquela indolência depressa se tornou a manifestar e o marido ficou inquieto de novo. ?Alguma coisa de anormal, sob o aspecto físico, se está a passar. Nunca vi a Sofia assim.? Foi necessário usar de muita persuasão para convencer a mulher a consultar um médico, coisa a que sempre fôra contrária. Durante a consulta, o médico perguntou à Sofia:

?Agora que os seus filhos já saíram de casa tem aproveitado, com certeza, para fazer tudo aquilo que antes não podia??

?Nem pensar, doutor! Não faço absolutamente nada! Os dias parecem arrastar-se. Sinto-me inútil. A casa está tão vazia!?

Então o médico deu-lhe a seguinte explicação: ?O seu corpo foi habituado, durante anos, a períodos regulares de stresse. Na realidade, todos nós temos necessidade de uma certa quantidade de stresse para desfrutarmos de equilíbrio. Seria bom para si encontrar um passatempo que a ocupasse ou lhe permitisse conhecer outras pessoas, fazer novas amizades. Ajudando os outros, ajudar-se-á a si mesma.?

Quando a Sofia contou ao marido o que o médico lhe dissera, os seus olhos brilharam de alegria. Ela comunicou-lhe então, que estava a pensar inscrever-se como voluntária no ?S.O.S. Amizade?.

?Sofia, a tua ideia é excelente!? concordou o marido. Estou certo de que estarás à altura dessa tarefa. A tua compreensão e dedicação fizeram de mim um homem feliz. Vai, pois isso será bom para ti e alargarás assim os teus horizontes.?

Os jovens e o stresse

Uma criança pode ter dificuldades em adaptar-se à escola, se não for feliz em casa. Esta insatisfação faz com que ela sinta pouco gosto e aversão aos estudos e, por vezes, até angústia. Mesmo durante os seus primeiros anos, pode sentir momentos de stresse. Tem de adaptar-se a uma vida nova: companheiros de educação muito diversa, novos professores, etc.. E isto no começo de cada ano escolar.

Hoje, os adolescentes têm diante de si uma escolha cada vez maior de carreiras profissionais. Mas há uma tal instabilidade no mundo do trabalho que o futuro se torna incerto. A sociedade está em permanente mutação, os jovens sentem-se desamparados, e isto tem uma influência profunda sobre o seu psiquismo. É verdade que eles se adaptam melhor do que os mais velhos, mas têm de aprender a viver com este stresse e, mesmo, a tirar vantagens dele para benefício da sua saúde. Ainda, neste caso, é uma questão de bom-senso. Há um limite que se não deve ultrapassar, limite esse que é variável segundo os indivíduos e para além do qual a saúde é posta em causa.

Os segredos do equilíbrio

As preocupações exercem uma certa influência sobre a nossa tensão. As emoções e as angústias aceleram a coagulação do sangue e o envelhecimento das artérias. Os cientistas descobriram que o recolhimento e a calma activam a secreção de uma substância necessária ao nosso equilíbrio: a heparina. Esta tem a propriedade de fluidificar o sangue e de facilitar o metabolismo dos nossos ácidos gordos livres. Ora, uma pessoa continuamente agitada não segrega suficientemente esta importante substância. Sabe-se hoje que a meditação activa (recolhimento, calma, vida interior) melhora a actividade cerebral, mais do que qualquer outro método de descontracção. Quando uma pessoa medita, produz-se uma transformação no funcionamento das suas células, pela diminuição do consumo tecidular de oxigénio. Contrariamente à pressão causada pela ansiedade, toda a descarga agressiva aumenta o consumo do oxigénio no organismo e a formação de dióxido de carbono e resíduos.

Mas, o hábito da meditação deve ser acompanhado de exercício físico, ao ar livre. Alguns põem em causa, com razão, a vida nas grandes cidades modernas e preferem o ambiente saudável do campo.

Para aqueles que podem desfrutar de um verdadeiro repouso e de uma perfeita calma, isso tem tanto ou mais valor do que, muitas vezes, os fins-de-semana ou mesmo as férias passadas fora das grandes cidades sem qualquer descanso. Pense nas férias de Verão, nos engarrafamentos, na confusão das praias, nas enchentes nos restaurantes e na real falta de tranquilidade que em geral acontece. Quantas vezes chega tão cansado como quando partiu?

O nosso estado de espírito em face da vida é, também, determinante. É importante enfrentar os problemas da vida com pensamentos positivos.

Em resumo, diremos que é necessário lutar contra as tensões emocionais excessivas, eliminando as que podem ser evitadas e compensando as outras através de uma actividade regular, ao lar livre, com momentos frequentes de calma e com um estado de alma optimista.

Se soubermos associar estes três elementos, a nossa vida poderá ser apaixonante e a nossa saúde mantida ou melhorada.